martes, 2 de marzo de 2010

1650 Capangas em Campos dos Goitacazes

POPULAÇÕES MERIDIONAIS DO BRASIL
Edições do Senado Federal – Vol. 27
Oliveira Viana
Brasília – 2005

Da utilização do mestiço da parte dos senhores rurais como elemento agressivo, citaremos, a título de exemplo, uma prova histórica impressionante e sugestiva. É um verdadeiro instantâneo de antropologia
criminal da mais perfeita nitidez. É o caso que, em 1650 e tantos, o capitão-mor dos Campos dos Goitacazes, André Martins de Palma, entra em luta com os potentados locais, criadores, e acaba assassinado. Desfecho trivialíssimo naqueles agitados tempos. Move-se o processo. Na carta precatória às autoridades da colônia para a captura dos criminosos vêm descritos, com minudência, como a lei exige, os sinais somáticos e fisionômicos de cada um deles. É uma galeria variegada de mestiços genuínos:

– “Manuel Ribeiro Caldeira: espigado de corpo, gadelha grande e crespa.”
– “Antônio Silva: cinqüenta anos; pretalhão; com uma cutilada na cara; gadelha meio crespa; pouco alto de corpo e não muito cheio de carnes.”
– “Jerônimo Dias: alto de corpo; cheio de carnes; pretalhão; vermelho de cara; barba meio ruiva; cabelo grande.”“Francisco d’Arruda: homem de poucas carnes; de meia estatura; bigode ruivo; cabelo preto e crespo.” 213
Em todos esses sicários a mestiçagem é visível, claríssima. O primeiro é evidentemente mulato: a gadelha “grande e crespa” é perfeitamente característica. Os dois seguintes estão por si mesmos classificados: ambos são “pretalhões”, e o primeiro tem a “gadelha meio crespa”, o segundo a “barba meio ruiva” e a “cara vermelha” – o que indica dois cafuzos ou dois fulos legítimos. O último é também mestiço: “o bigode
ruivo” e o cabelo “preto e crespo” indicam um meio-sangue autêntico. Um parece até facínora profissional, porque traz na face um gilvaz expressivo, uma “cutilada”, que denuncia o veterano do crime.
Esse documento é prova eloqüentíssima da função agressiva e criminal do mestiço em nossa história e confirma o testemunho unânime dos cronistas coloniais: “Eles são a exceção de um pequeno número
de brancos, todos mulatos, cabras, mestiços e negros forros” – diz Teixeira Coelho. 214
O que se passa em Campos, nos meados do II século, é,aliás, o que se passa em Minas, em São Paulo, no Rio, naquele mesmo século e nos séculos seguintes. Em certa casta de mestiços essa amoralidade específica não tem derivações criminais: transforma-se em equivalente psíquico de plasticidade e duplicidade de caráter, em habilidade de dissimulação, em hipocrisia orgânica. O tipo nacional e clássico do capadócio, com a sua afetação, o seu recacho, a sua pernosticidade inata, os seus ademanais atraentes e maneirosos, a sua elegância intelectual e física, é, entre a mestiçagem, o seu exemplar aristocrático e mundano. Sondai, entretanto, o fundo moral desse mestiço espiritual e galante e encontrareis o lúbrico profundo, diante de cuja licenciosidade o casto Antonil ruboriza, escandalizado: “... e para que aqui tudo seja o purgatório dos brancos, o inferno dos negros e o paraíso dos mulatos e mulatas”.
http://www.novomilenio.inf.br/sv/svfotos/svh062a.pdf

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